Texto curatorial da 5a edição do Paço Comunidade na Ocupação do antigo Hotel Cambridge

Por: Cláudio Bueno e Priscila Arantes

A atividade criativa arranca o homem da sua rotina do
cotidiano, ela põe sempre uma nova dimensão para o homem.
Mário Pedrosa, 1970 (2013, p. 94), in: Encontros / Mário Pedrosa | César Oiticica Filho (org.)

O avesso cotidiano

Desde 2013, o Paço das Artes desenvolve o projeto Paço Comunidade. Idealizado por Priscila Arantes, diretora e curadora do Paço das Artes, o programa foi pensado no sentido de ampliar as ações da instituição na comunidade, inicialmente ligadas às imediações da Cidade Universitária, no bairro Jardim São Remo, onde o Paço das Artes esteve localizado desde 1994. Dentro desse contexto, o Paço das Artes desenvolveu uma série de ações, visando criar um canal de conversa e diálogo com os moradores do entorno, através do campo da arte.

Diante da busca por uma sede definitiva a partir de 2016, o programa ampliou sua abrangência e passou a atuar no contexto da cidade de São Paulo. E, no ano passado, em parceria com a Ocupação do Movimento Sem-Teto do Centro/Frente de Luta por Moradia (MSTC/FLM) no antigo Hotel Cambridge, instalou-se, temporariamente, entre os meses de setembro e dezembro, dentro do ateliê de costura daquele edifício, localizado na avenida Nove de Julho, 216. Esta Ocupação, que abriga mais de cem famílias, conta hoje com diversas atividades internas como: ensino de línguas estrangeiras para jovens; uma residência artística; uma padaria; uma oficina de costura; um salão de beleza; uma horta; um brechó; um consultório odontológico etc. Em 2016, a ocupação passou a abrigar inúmeras ações voltadas à cultura e às artes, campo onde se inserem as atividades do Paço das Artes.

Para esta ocasião, convidamos para integrar o projeto Paço Comunidade, a plataforma de mapeamento e experimentação de modos de aprendizagem Intervalo-Escola, e a artista, estilista e consultora de moda Agustina Comas – responsável pela condução de oficinas com a equipe de costura da Ocupação, a partir do conceito de upcycling.

Upcycling é o processo de transformar resíduos ou produtos descartáveis em novos materiais, elevando seu valor, uso ou qualidade, para recolocá-lo em circulação. Diferentemente de desfazer um produto para que se produza um novo – como ocorre comumente na reciclagem de materiais plásticos –, o método de trabalho em upcycling reaproveita as qualidades estruturais de algo já existente. No trabalho junto ao grupo de costura da Ocupação, foi proposta, portanto, como compartilhamento da prática da artista Agustina Comas, a produção

de peças de roupa que usam, como matéria-prima, as sobras da indústria têxtil e das confecções na cidade de São Paulo. Para além do viés econômico, no sentido da possibilidade de continuação dessa prática pelos frequentadores do ateliê de costura, comprando matéria-prima/sobras da indústria a preços muito baixos, buscou-se instaurar ali, principalmente, um espaço de criação. Uma instância
capaz de estimular a reinvenção da “arte de fazer” cotidiana; no caso da costura, experimentá-
la ao avesso.

Deslocando e abrindo brechas nas rotinas diárias das/dos participantes, essa atividade de três meses propunha pensar, criar, virar, transformar a roupa – compreendendo a roupa como abrigo, como arquitetura provisória, como moradia temporária de um corpo. Refletir a partir de um corpo que aparece no mundo, que se veste, que se coloca socialmente, no limite do corpo como casa.

Encontrar o tecido ou a roupa descartada que se pretende remodelar, permitiu-nos imaginar, nesse contexto, o encontro de um edifício sem uso, que desejamos habitar, mas é necessário, antes de tudo, transformá-lo, sensibilizá-lo de outra maneira, virá-lo do avesso, de hotel à habitação, de praça á instituição cultural (situação atual do Paço das Artes, na prospecção de novos espaços, em 2017).
No processo vivido, as peças de roupa – aquelas produzidas intencionalmente pela indústria, como excedente, como algo que já se sabe que não será vendido – foram transformadas pela manufatura manual, modeladas na singularidade de cada corpo, no tempo e na intimidade de um ateliê-escola- oficina de criação, sem compromisso com o mercado de moda ou a indústria, apenas com a liberdade de experimentação total.

Foi sob essa perspectiva, de atuação na dimensão da atividade criativa, que o projeto foi recebido, desde a primeira escuta realizada pelos curadores junto a Danilo Martinelli, Carmen Silva e Leni Ferreira, até o encontro com as/os possíveis participantes das oficinas. Entre o mutirão de limpeza da Ocupação, as reuniões de condomínio, as vigílias necessárias às novas ocupações da cidade, as dinâmicas cotidianas de trabalho e família, o ateliê guardava ali, no encontro e interação com seus pares, a potência de “arrancar” as pessoas de sua dinâmica cotidiana.

Além das oficinas, ocorreram ainda, aos sábados, encontros com pesquisadores, artistas e produtores de moda, como Chiara Gadaleta, Mônica Nador, Suzana Avelar e Tainá Azeredo. Através desses agentes, somou-se, a esse processo, uma camada de complexidade, aproximando a vivência do ateliê às práticas de aprendizagem, pesquisa e mercado experimentadas no mundo, hoje.

É, portanto, com o desejo de fomentar e convidar à reinvenção dos modos de encontrar, resistir, criar, existir, fazer, pensar e habitar, num cotidiano que nos obriga a virar tudo do avesso, que se encerra a quinta edição do Paço Comunidade, no antigo Hotel Cambridge.

Agradecimentos

À equipe do Cambridge: Carmen Silva, Danilo Martinelli, Harmim Antonio Ortega Rojas, Leni Ferreira Lemes, Lucimar Alves Santos, Maria das Neves, Nirele dos Santos França, Preta Ferreira, Ronald Felisberto, Roseana Rosa; à equipe do Paço das Artes: Carolina Ferreira, Larissa Souto, e Vanessa Rodrigues; à equipe da Residência Artística do Cambridge: Ícaro Lira, Juliana Caffé, Raphael Escobar e Yudi Rafael; à equipe de vídeo: Gilberto Caetano e Thais Scabio; ao designer do projeto, Guilherme Falcão.

Referências bibliográficas

ARENDT, Hannah. A vida do espírito. São Paulo: Ed. Civilização Brasileira, 2009.
DE CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Artes do fazer – vol. 1. Petrópolis: Vozes, 2007.
OITICICA FILHO, César (org.). Mário Pedrosa. Coleção Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2013.

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São Paulo, janeiro de 2017

 
 
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