CONTRAMONUMENTO

Monument Against Fascism, War, and Violence-and for Peace and Human Rights – Jochen Gerz in collaboration with Esther Shalev–Gerz
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Texto derivado de fala homônima apresentada na FUNARTE, Brasília, em 20 de março de 2015, na mesa de debates "Mediações: entre o público e o espaço", em torno da obra/exposição Toque-me do artista Eduardo Salvino & OSNÁUTICOS.
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Toque-me, uma obra que se manifesta por meio de dois telefones públicos que tocam sem parar, em volume baixo, debaixo da marquise do edifício da FUNARTE em Brasília, convida o transeunte a atender um desses telefones. Ao retirar o fone do gancho é solicitado que essa pessoa digite a data de seu nascimento, para que então lhe sejam oferecidas algumas poesias, recitadas em seu ouvido e supostamente escolhidas para ela.

A inesperada delicadeza desta instalação passa a sensibilizar o sujeito passante, diante de uma arquitetura monumental como a de Brasília. Uma cidade preparada para os carros e muito incômoda para aquele que enfrenta a pé uma tarde chuvosa do mês de março (caso vivenciado pelo autor do texto na ocasião da mostra). É desse modo, sensível e desencaixado das expectativas de seu espaço-tempo, que o trabalho nos abre como uma das possibilidades de discussão, a noção de contramonumento.


Toque-me, Eduardo Salvino, Brasília, DF.

Contramonumento como aquele que intervém simbolicamente no imaginário de um espaço público, mas não se instala de modo impositivo, totalitário e estéril como os monumentos tradicionais – pois considera o outro, a heterogeneidade das histórias de uma cidade, suas memórias, narrativas, afetos, etc. Por exemplo, em Toque-me: a data a celebrar é a do dia de nascimento dos passantes; as poesias escutadas foram produzidas entre o coletivo de poetas OSNÁUTICOS e as oficinas de poesia que ocorreram durante a exposição –, esses encontros geraram novas inserções sonoras nas “memórias desses orelhões”.

Dessa maneira, a obra parece flexibilizar sutilmente a monumentalidade de uma cidade como Brasília, composta por um eixo monumental e uma grelha hostil a qualquer narrativa pessoal, que não seja aquela de seus arquitetos, políticos e urbanistas. Como nos esclarece a crítica de arte Rosalind Krauss (1985) em torno dos grids: "A estabilidade absoluta do grid, sua falta de hierarquia, de centro, de inflexão, enfatiza não só o seu caráter anti-referencial, mas - mais importante - sua hostilidade à narrativa".

Tal rigidez homogeneizante e racional dos grids que organizam diferentes cidades modernas ao redor do mundo, vem sendo problematizada no campo da arte, da arquitetura e demais áreas do conhecimento, tanto nacionalmente quanto internacionalmente. É o caso, por exemplo, dos italianos do grupo Superstudio, que em 1969, criaram a série de imagens intitulada Monumento Continuo, seguida da série Supersuperfície, desenvolvida entre os anos de 1971 e 1973.

Em suas imagens, o grupo evidenciava o absoluto domínio do homem sobre a natureza, diante do rigor geométrico dos grids colados às superfícies, que reforçavam aspectos racionais e anti-naturais dessas ocupações. Uma estrutura imutável, incomunicável e inabalável.


Monumento contínuo (1969), Superstudio. Fonte: SCHAIK, 2005, p.132.


A Journey from A to B (Uma jornada de A para B), 1972, Superstudio.

Os grids sugerem um senso de continuidade aflitivo, pervasivo, ubíquo e inescapável, como uma aplicação infinita e repetida no espaço-tempo, capaz de cobrir com seu padrão quadricular toda a superfície da terra. Sua monumentalidade revela uma arquitetura totalitária, regular, opressiva e vertiginosa para aquele que se desloca com o corpo diante dela.

O grupo Superstudio sugeria criticamente a ocupação do território das cidades, de modo isotrópico, infraestrutural e invisível, como uma malha infinita que se distribuíria por todo o espaço, atravessando o corpo e colocando-se como mais uma camada de mediação das relações.

"Presentemente, o ambiente é controlado principalmente por meios físicos, tridimensionais (represas, canais, grandes áreas cobertas, microclimas). A hipótese: controle do ambiente pela energia (correntes artificiais, barreiras térmicas, radiação, etc.). Rumo ao desaparecimento das membranas divisórias entre interior e exterior. A caverna e a fogueira na planície. Microclimas, grandes áreas, coberturas cada vez mais leves. Do hardware ao software. A Terra utilizada para grelha de serviços e comunicação. Uma cidade sem suportes 3D. Uma hipótese para uma grelha isotrópica e homogênea / Supersuperfície." (SUPERSTUDIO apud SCHAIK; MACEL, 2005; Tradução: Paulo Miyada)

É dessa maneira, desterritorializada e monumental que parecem se distribuir as atuais redes digitais e suas transmissões por quase todo o globo terrestre, colocando-se como um elemento mediador dos corpos, das relações e dos espaços de maneira pervasiva e quase inevitável. Ao cobrir infraestruturalmente quase todo o planeta, estas redes podem ser interpretadas como uma espécie de monumento contínuo.

Nesse sentido, a fim de devolver ao território aquilo que ele tem de particular, de específico e diferenciado, contrariando a naturalizada mobilidade dos dados, dos corpos e das informações (a qualquer lugar a qualquer tempo), foi desenvolvido por mim e uma rede de colaboradores Le Chant des Sirènes, 2011 (da série Monumentos Invisíveis). Um monumento sonoro instalado no Antigo Porto de Québec que podia ser escutado através de um aplicativo para celular, somente nesse local específico, em frente ao Museu Naval, no momento em que o corpo do visitante se colocava diante do chamado Rio Saint Laurent.

Realizado num processo dialógico que envolvia trocas diárias com oito cantoras do conservatório de Québec, o trabalho abordava a história de 8 mulheres que morreram no mar, durante as duas grandes guerras do século XX, trabalhando principalmente na comunicação por rádio, entre os navios e a terra.

Numa cidade como Québec em que a predominância das histórias são aquelas contadas pelos homens, bem como em diversas cidades ao redor do mundo, esse monumento-negativo, sonoro e invisível, construído com a participação de diversas pessoas, aponta para a multiplicidade narrativa de uma cidade. Incentiva a reescritura de suas histórias e atua como resistência simbólica aos processos globais e desterritorializantes de comunicação, restringindo, por exemplo, a audição deste som a um único local, exigindo a presença e o corpo do outro para que a experiência artística aconteça. Essa série de Monumentos Invisíveis deixam entrever a estrutura brutal dos monumentos oficiais, procurando assim, relativizá-los, e até mesmo, desmanchá-los.

Toque-me, associado à ideia de contramonumento, coloca-se assim como resistência a processos homogeneizantes, estéreis e antinarrativos. Em suas poesias não celébra nenhum grande evento ou presta homenagem a uma figura ilustre, de individualidade reconhecível, mas apenas às sensibilidades comuns e elementares pertencentes a uma singularidade qualquer. Coloca-se assim como importante elemento de mediação entre a rigidez do espaço público e a escuta íntima de uma poesia soprada em nossos ouvidos.




REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. A Comunidade que vem. Lisboa: Presença, 1993.

BUENO, Claudio. Le Chant des Sirènes, 2011. Disponível em: Acesso em 01/04/2015.

DANZIGER, Leila. JOCHEN GERZ: O monumento como processo e mediação. IN: Arte & Ensaions. Revista do PPGAV/ EBA/ UFRJ, N.2 1, 2010.

MIYADA, Paulo Kiyoshi Abreu. Supersuperfícies: New Babylon (Constant Nieuwenhuys e Internacional Situacionista, 1958-74) e Gli Atti Fondamentali (Superstudio, 1972-73). O pensamento utópico como parte da cultura arquitetônica no pós-guerra europeu. 2013. Dissertação (Mestrado em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo) - FAU-USP, São Paulo, 2013. Disponível em: . Acesso em: 11 Abr. 2014.

KRAUSS, Rosalind. A escultura no campo ampliado. In: Revista Gávea. Rio de Janeiro, 1985.