Texto sobre a participação da Intervalo-Escola na 5a edição do Paço Comunidade na Ocupação do antigo Hotel Cambridge

Intervalo como escuta
Por Cláudio Bueno e Tainá Azeredo

Intervalo-Escola é uma plataforma que mapeia e experimenta diferentes modos de aprendizagem no campo da arte e a partir dele. Os acontecimentos da Intervalo enfatizam modelos de aprendizagem colaborativos, cooperativos, não hierarquizados, imersivos, sensíveis e informais. Colocamo-nos sempre diante não só de possíveis diálogos, mas também de antagonismos em relação às práticas e conceitos formais de ensino. Essa é uma escola sem lugar fixo, que atua como zona autônoma temporária imersiva, na qual cada acontecimento é composto por grupos, lugares, saberes e contextos específicos. A Intervalo-Escola foi criada e tem como colaboradores centrais os pesquisadores-etc. Cláudio Bueno e Tainá Azeredo.

Para cada edição da escola, convidamos um artista, que compartilha e propõe ao grupo de participantes uma dinâmica relativa a seu trabalho, compreendendo sua prática artística como prática de ensino e aprendizagem. Realizamos, em 2016, com o apoio do Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais 12ª edição, duas imersões neste formato: uma em São Paulo, com o artista Ricardo Basbaum, e outra no Amazonas, com o artista e pesquisador Jorge Menna Barreto. O encontro com o projeto Paço Comunidade permitiu-nos, juntamente à curadora Priscila Arantes, estar junto da artista-estilista Agus Comas.

Integrar, juntar forças e atuar na quinta edição do Paço Comunidade no antigo Hotel Cambridge reforça,
ainda, as demais dimensões e modos de operar da Intervalo-Escola, que tem como um de seus procedimentos-chave, a escuta. Junto a comunidades específicas, criamos aproximações, escutamos, conversamos, para que, então, sejam elaboradas, na especificidade de determinado grupo e local, propostas de artistas e processos possíveis de ser compartilhados.

Acreditamos na escuta como forma de elaboração de um saber que passa pelo corpo, evitando, assim, dizer algo de antemão, que já se saiba a priori. Dessa maneira, talvez seja possível encontrar modos de descolonizar saberes, conhecimentos já muito sedimentados e automatizados em nossas falas e modos de operar no mundo, hoje. Foi assim que ocorreu, nesta ocasião, dentro da Ocupação, numa conversa inicial com Danilo Martinelli, Leni Ferreira e Carmen Silva, quando nos apresentaram a oficina de costura do Cambridge, e ainda promoveram um encontro com todxs xs interessadxs em participar das oficinas junto à Agus.

É dessa maneira que também atuamos com a escola na região amazônica. Um trabalho realizado junto aos jovens, crianças e adultos, no contexto da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho, onde trabalhamos com a Casa do Rio, o Centro de Saberes da Floresta e a RDS Igapó-Açu (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) na valorização dos saberes locais, tanto em sua perspectiva cultural e artística, quanto nos possíveis desdobramentos econômicos da região. Num local de riqueza cultural tão ampla, não é possível atuar sem escutar.

Encontrar, estar junto, escutar, fortalecer grupos e histórias, pensar e experimentar escolas e modos de aprendizagem possíveis e indisciplinares… parece-nos uma das maneiras de resistir e existir, hoje, no Brasil, em 2017, diante de tanta violência e retrocesso no plano social e ambiental.

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São Paulo, janeiro de 2017

 
 
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